PESSOA, Fernando. Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias. Lisboa: Edições Ática, 1966. Publicado pela primeira vez em 1924 como editorial de apresentação da revista Athena.
Arte e cultura : as interfaces da subjetividade
Publicado pela primeira vez em 1924 como editorial de apresentação da revista Athena, o texto de Fernando Pessoa traz a proposta de pensar a arte como produto equilibrado e conjugado entre o equilíbrio da sensibilidade e a objetividade do entendimento, além de tecer uma critica negativa à arte apenas como entretenimento, visto que “ se excedem esse fim, a si mesmo se excedem”, representando o que ele denominou de artes inferiores e artes superiores.
Fernando Pessoa ainda aborda a cultura como forma exclusiva da subjetividade ser aperfeiçoada: diretamente através da ciência, aprimorando a nossa visão e ilusão de mundo e indiretamente através da arte, trabalhando num aperfeiçoamento do sujeito onde, tanto arte como ciência, estão paradoxalmente separadas e indissociáveis em uma “mistura e confusão”. O autor faz alusão a mitologia grega trazendo ao discurso a figura do deus Apolo (personalização instintiva da sensibilidade e beleza artística) e a deusa Athena ( personalização da união entre a arte e ciência efetuando nessa união a perfeição) afim de justificar o nascimento do artista.
Para que o artista imprima na sua arte a beleza e a perfeição, considerando que para Pessoa estão figurados na deusa Athena e no deus Apolo, é necessário buscar a deusa ou o deus que anseia ser. Se na mística grega tudo o que acontecia era produto da predestinação divina, para o autor “não se aprende a ser artista, aprende, porém, a saber sê-lo”. Entretanto, contrariamente, Pessoa considera que de certo modo exista um resíduo inato, embora manifeste a crença de que “quanto maior o artista nato, maior a sua capacidade para ser mais que que o artista nato”. Logo, no artista nato, a singularidade subjetiva da sensibilidade é também generalizada e impessoal, visto que há fusão entre os dois elementos do espírito (sensibilidade e entendimento) e não apenas uma conjunção para posteriormente se equilibrarem.
Da sensibilidade do artista, objetivada diferentemente de todas as outras produções e personalidades, origina a inspiração, o segredo que grita mas que jamais é revelado pelo artista. No entanto, para gerar arte Pessoa acredita que é necessário cindir-se a esta o entendimento negado para finalmente se estabelecer o equilíbrio: a subjetividade da emoção e a objetividade do entendimento interpolam para enfim equilibrarem-se.
À sensibilidade conduz geralmente ao ato e a sensibilidade à contemplação. A arte que tem esses dois elementos fundidos se torna uma “contemplação ativa, uma ação parada”. Na fusão de ambas, unidos e equivalentes, revelada em sua origem e em seu resultado, que os gregos figuraram em Apolo, cuja ação é a melodia ( grifo nosso), a produção e perfeição artística.
Dando seguimento as reflexões sobre a arte, Pessoa traz um ponto importantíssimo da cultura moderna, que é a imitação e reprodução em larga escala e define o fenômeno como uma pobreza de entendimento e de objetividade, “pobre de sensibilidade e de pessoa a arte é uma matemática sem verdade” configuradas num assassino da individualidade emergente.
Uma das características mais interessantes desse texto de Pessoa é a sua colocação da cultura como o aperfeiçoamento subjetivo manifestado de uma forma indireta, através da arte e direta por meio da ciência. Na arte podemos buscar o aperfeiçoamento temporário, permanente ou constante determinados por nossa índole e pelas circunstâncias que nos circundam, o que ocasionará também o tipo e o grau de nossa escolha; na ciência um aperfeiçoamento na visão de mundo, a medida que ela própria se eleva e se refina.
Para Fernando Pessoa no aperfeiçoamento temporário, não há um aperfeiçoamento verdadeiro, mas um esquecimento de si mesmo e da imperfeição que carregamos. Ministrando esse esquecimento estão as artes inferiores ( a dança, o canto e a representação) cuja finalidade é apenas lúdica e que por isso acabam, como bem coloca Pessoa, se excedendo. No aperfeiçoamento constante, ainda não existe um aperfeiçoamento verídico, mas a presença de estímulos exteriores para ele. Estes estímulos são físicos e sólidos, cujo objetivo é o de enfeitar e de embelezar, ministrados pelas artes superiores concretas (a pintura, a escultura e a arquitetura), no entanto existe uma ínfima possibilidade delas mesmas se excederem. Por último, no aperfeiçoamento permanente, o homem vive cada vez mais nele e progressivamente terá uma vida cada vez mais perfeita: “não vive o homem servo de si, como na sensibilidade, nem pensa superficialmente do ambiente, como o entendimento”, mas é livre da banalidade e profundo quanto à realidade. As artes que por natureza ministram tal aperfeiçoamento são as artes superiores abstratas ( a música, a literatura e a filosofia).
Munido por suas distinções de arte superior e arte inferior, Fernando Pessoa coloca de maneira fabulosa que todas as artes devem tender para a abstração das artes maiores ( as artes que ministram o aperfeiçoamento permanente), visto que as artes superiores podem cair ao ponto das mais baixas e estas podem de certo modo elevar-se ao estado das supremas. Aliás, o sujeito não se encontra acabado em si e absorto pela inspiração, pode criar, recriar e descrever realidades concretas ou imaginadas a ponto de passear pelas diferenciações feitas por Pessoa.
O autor ainda descreve os elementos abstratos que pode haver e sobressair em qualquer arte: “ a ordenação lógica do todo em suas partes, o conhecimento objetivo da matéria que ela informa e a excedência nela de um pensamento abstrato”. Assim, qualquer arte compartilham em maior ou menor grau esses elementos, sendo que nas artes abstratas, sobretudo na literatura - considerada a mais completa por Pessoa - se manifestam inteiramente. Essa mesma abstração manifestada na arte é característica soberana da ciência . É, pois, nesse nível de abstração que a arte e a ciência se elevam e “ este é o império de Athena, cuja ação é a harmonia” (grifo nosso).
Por mais que haja uma elevação da arte, ela não pode se desprender do entendimento e da sensibilidade, marcos de sua origem, visto que sem harmonia e equilíbrio dos elementos opostos “não haverá ciência nem arte, porque nem haverá vida” (grifo nosso), logo, a arte suprema é consequência da singularidade da emoção e do entendimento - posse do homem, do tempo e da universalidade da razão.
O último ponto que o autor expõe é que toda arte superior antes de nos entreter, nos entristece, visto que para Pessoa elevar é antes de mais nada desumanizar. Assim, a arte aparentando-nos perfeita, nos aponta a nossa imperfeição e já que ela não é perfeita sinaliza a imperfeição que somos.
A subjetividade não é pura em si no sentido de que é influenciada pela política e pelas relações estabelecidas entre os homens. A própria impressão subjetiva sobre a realidade é produto de uma época, de um contexto e de características idiossincráticas. Ser produtor de qualquer gênero artístico, ousamos nos referir principalmente na contemporaneidade, é uma necessidade subjetiva, por vezes um ponto de equilíbrio que o sujeito encontra para se estabelecer no mundo. Assim, neste texto em que Fernando Pessoa coloca a arte como instrumento de aperfeiçoamento, acerta felizmente ao concebê-la como suprema na subjetividade da emoção e do entendimento, mas erra ao distinguir artes superiores das artes inferiores. Aliás, o que é a arte, senão elevação e expressão de uma subjetividade absorta em sua singularidade? E o que é o “superior” e o “inferior” senão um posicionamento subjetivo? Embora Pessoa pondere que as artes superiores (a música, a literatura e a filosofia) possam cair ao nível das mais baixas e vice-versa, parece-nos errôneo diferenciar algo como “mais artístico” ou “menos artístico”.
Embora o conceito de arte, assim como suas expressões, varie entre as culturas e as épocas, a produção artística para ser considerada “arte” precisa possuir as particularidades que transcendam o humano e as épocas. Assim, o quadro Monalisa do pintor italiano Leonardo Da Vinci (conhecido também pela sua multiplicidade de talentos além da pintura) sempre acarretará nas gerações seguintes mistérios e interpretações acerca da obra . Portanto, podemos dizer que arte é tudo aquilo que se pode universalizar. Desse modo, ao trazer para o debate a mística grega, figurada no deus Apolo (personalização instintiva da sensibilidade e beleza artística) e na deusa Athena ( personalização da junção entre a arte e ciência realizando nessa união a perfeição) o autor é assertivo ao falar que “não se aprende a ser artista, aprende, porém, a saber sê-lo” e a não ser extremista, considerando que parece existir uma capacidade inata de algumas pessoas direcionadas para a arte.
O texto de Fernando Pessoa, datado de 1924 nos traz reflexões contemporâneas ao nosso tempo, como a reprodução em massa e o assassinato da subjetividade emergente. As implicações colocadas no texto são de grande importância e valor, principalmente aos interessados e adeptos de uma cultura menos subjetivada e mais produtora de subjetividades. Aliás, assim como nos indica o autor, a cultura é o aperfeiçoamento subjetivo da vida.
Ingrid Michélle de Souza Santos
Imagem: Menina em frente ao espelho (Picasso, 1932) . Museu de Arte Moderna de Nova York, Estados Unidos da América .Óleo sobre tela.



























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